Há 30 anos, quando a Gibiteca começou a funcionar em Campo Grande, o projeto tinha uma estrutura muito diferente da que existe hoje. Eram poucos recursos, um acervo que ainda estava sendo formado e a insistência de Ronilço Guerreiro em defender uma ideia que nem sempre era compreendida: histórias em quadrinhos também poderiam ser uma porta de entrada para a leitura, para a educação e para novas oportunidades. Três décadas depois, o que começou com cerca de 150 gibis se transformou em uma instituição com mais de 25 mil exemplares e uma rede de projetos que leva livros para escolas, feiras, praças, terminais de ônibus e comunidades.
A trajetória, no entanto, não pode ser contada apenas pela persistência do fundador. Se Ronilço foi quem teve a ideia, encontrou caminhos e insistiu mesmo diante das dificuldades, a expansão da Gibiteca só aconteceu porque outras pessoas e instituições decidiram acreditar no projeto. A própria história mostra isso. A UCDB esteve ligada à iniciativa desde os primeiros anos, inclusive com participação de acadêmicos em atividades de extensão voltadas à leitura e à educação. A construção do projeto também passou por doações, apoio de empresas, instituições públicas, voluntários e pessoas que ajudaram a transformar uma ideia em uma estrutura permanente.
“Eu nunca caminhei sozinho. Sempre encontrei gente do bem disposta a sonhar comigo”, resume Guerreiro ao falar sobre a trajetória. A frase ajuda a explicar como a Gibiteca conseguiu deixar de ser apenas um espaço físico para se transformar em uma rede de incentivo à leitura. Um dos exemplos mais conhecidos é a Vanteca, biblioteca itinerante que nasceu depois de uma tentativa de arrecadação para comprar uma Kombi. O veículo acabou chegando por meio de uma doação do Sicredi e passou a levar livros para escolas, eventos, bairros e outros espaços da cidade.
Outro nome que ganhou espaço nessa história foi o humorista Fábio Porchat, que se tornou um dos apoiadores mais conhecidos dos projetos. A parceria ajudou a viabilizar a Gibicicleta e outras iniciativas, como as estantes de livros nos terminais e a Freguesia do Livro. Em 2021, Guerreiro chegou a homenagear Porchat justamente pelo apoio às ações de incentivo à leitura. Em seu discurso, destacou que as doações ajudaram a transformar projetos que estavam no papel em ações que passaram a ocupar diferentes pontos de Campo Grande.
A lista de parceiros que passaram pela história da Gibiteca inclui ainda empresas, instituições culturais, universidades e o poder público. Energisa, Águas, Sesc, Fecomércio, Fundação Zahran, TV Morena, Governo de Mato Grosso do Sul e Prefeitura de Campo Grande estão entre os nomes associados a ações, apoios e iniciativas que ajudaram a ampliar o alcance do trabalho. Mais recentemente, o Ponto de Cultura Gibiteca passou a desenvolver projetos com apoio do Governo do Estado, Sesc/Fecomércio, Cultura Viva, Política Nacional Aldir Blanc, Sistema Nacional de Cultura, Ministério da Cultura e Governo Federal.
O resultado dessa soma pode ser visto nos projetos que ultrapassaram as paredes da sede. As estantes de livros nos terminais de ônibus funcionam em sistema de livre acesso, permitindo que qualquer pessoa pegue uma obra, leia e devolva ou passe adiante. Atualmente, o projeto está presente nos terminais Aero Rancho, Morenão, Bandeirantes, Nova Bahia, Guaicurus, Júlio de Castilho e General Osório. A lógica é simples: fazer o livro circular e permitir que ele chegue justamente a quem nem sempre tem acesso a uma biblioteca.
A Freguesia do Livro levou essa mesma ideia para as feiras da Capital. A Gibicicleta colocou os quadrinhos nas ruas. O Livros Carentes transformou calçadas e espaços públicos em pontos temporários de leitura. A Vanteca passou a funcionar como uma biblioteca sobre rodas. Também surgiram projetos como Livros Esquecidos, Cabine de Livros, Bike da Leitura e outras iniciativas que nasceram da mesma preocupação: aproximar o livro das pessoas, em vez de esperar que elas encontrem o caminho até uma biblioteca.
Em 2026, a história entrou em uma nova etapa. Depois de três décadas de atuação, a antiga associação passou a atuar como Instituto Cultural e Social Gibiteca, ampliando sua capacidade de desenvolver projetos nas áreas de educação, cultura, assistência social e sustentabilidade. Entre as iniciativas atuais estão a Gibiteca 60+, o Circuito Criativo, formação de contadores de histórias, atividades de leitura, oficinas e a Escola Aberta Gibiteca ECO, que incorpora educação ambiental ao trabalho desenvolvido pela instituição.
A transformação também aparece em ações recentes. Em agosto, o Drive Thru da Leitura arrecadou mais de 6 mil livros apenas no primeiro dia e terminou com 16.749 exemplares recebidos ao longo de quatro dias. Em abril, mais de 50 pessoas participaram da primeira turma de formação de contadores de histórias. São iniciativas que mostram que, aos 30 anos, a Gibiteca continua tentando encontrar novas formas de fazer o livro chegar às pessoas.
Para Ronilço, o maior legado desse período não está apenas no tamanho do acervo ou na quantidade de livros distribuídos, mas na possibilidade de uma ideia individual ter se transformado em uma construção coletiva. “Livro parado não conta história” continua sendo uma das frases que resume o trabalho, mas outra ideia passou a acompanhar a trajetória: ninguém consegue construir um projeto desse tamanho sozinho. Foram parceiros que doaram recursos, livros, equipamentos, veículos, tempo, conhecimento e espaço; instituições que abriram portas; voluntários que ajudaram a organizar ações; e leitores que, depois de pegar um livro, também passaram a doar outro.
A história de três décadas da Gibiteca é, portanto, também uma história sobre parceria. O projeto criado por Ronilço Guerreiro ganhou força porque encontrou pessoas dispostas a acreditar que educação e cultura podem mudar trajetórias. Em vez de concentrar a leitura em um único endereço, a Gibiteca criou uma rede espalhada pela cidade. E, ao chegar aos 30 anos, agora como Instituto Cultural e Social Gibiteca, mantém a mesma ideia que deu origem ao projeto: usar livros, quadrinhos e educação como instrumentos para abrir caminhos e transformar vidas.
